Olho seco em cães e gatos: sinais e cuidado contínuo
Por Victor Costa, médico veterinário (CRMV MG 21605) · 15 de setembro de 2026 · 8 min
Composição editorial a partir do e-book original do Criando Elos.
Você limpa uma secreção grossa pela manhã e, poucas horas depois, ela voltou. O olho está vermelho, sem brilho, e o pet pisca ou tenta esfregá-lo. Esse conjunto pode acontecer no olho seco, mas também em problemas que ameaçam a córnea. A avaliação não deve esperar dois dias.
Olho fechado, vermelho ou opaco precisa de avaliação rápida
O nome técnico do olho seco é ceratoconjuntivite seca, ou CCS. Os sinais mais conhecidos são secreção pegajosa, vermelhidão e superfície ocular fosca. O pet também pode piscar demais, manter o olho parcialmente fechado ou esfregar o rosto. Esses comportamentos indicam desconforto, mesmo quando ele continua comendo e brincando.
A American College of Veterinary Ophthalmologists orienta buscar atendimento imediatamente diante de sinais de desconforto ocular, como olho fechado, vermelhidão e tentativa de esfregar. A pressa tem uma razão: uma úlcera de córnea pode produzir sinais parecidos e piorar depressa.
Procure atendimento sem demora se o pet mantém o olho fechado, tenta esfregá-lo, apresenta córnea azulada, esbranquiçada ou opaca, secreção nova, ferida visível, trauma ou mudança repentina na visão. Impedir que ele esfregue o olho pode reduzir novas lesões durante o deslocamento, mas não substitui o exame.
Se houver apenas uma pequena crosta antiga no canto do olho, sem dor, vermelhidão ou mudança no aspecto, registre e compare com o padrão do animal. Se a secreção reaparece, muda de cor ou vem acompanhada de desconforto, trate como alteração ocular. O artigo sobre o que é normal no seu pet ajuda a criar essa referência sem transformar observação em diagnóstico.
O que falta no olho seco e por que aparece secreção
A lágrima forma uma película sobre a córnea. Ela lubrifica a superfície, leva nutrientes e ajuda a remover detritos e agentes infecciosos. Essa película contém componentes aquosos, lipídicos e mucosos. Por isso, um olho pode ter pouca quantidade de lágrima ou produzir uma película instável, que evapora ou se rompe cedo.
Na forma quantitativa, as glândulas lacrimais e da terceira pálpebra não fornecem água suficiente. A córnea perde a cobertura lisa e o muco fica concentrado, o que ajuda a explicar a secreção grossa. Na forma qualitativa, a quantidade medida pode parecer aceitável, mas a composição ou a estabilidade da película está alterada. A ACVO explica que o tempo de ruptura do filme lacrimal pode ajudar quando há sinais clínicos apesar de uma quantidade aparentemente normal.
Sem proteção adequada, a conjuntiva inflama e a córnea pode ulcerar. Em quadros crônicos, vasos sanguíneos, pigmento e cicatriz avançam sobre uma superfície que deveria ser transparente. A visão pode ficar limitada, e uma úlcera infectada pode colocar o próprio olho em risco.
Secreção amarela ou esverdeada não confirma uma infecção simples. O MSD Veterinary Manual descreve secreção mucopurulenta, vascularização, pigmentação, fibrose e úlcera entre as possíveis manifestações da CCS. Escolher um colírio só pela cor da secreção pode atrasar a identificação do problema.
A doença não se comporta igual em cães e gatos
A forma clássica por deficiência aquosa é muito mais comum em cães. Neles, a causa mais frequente é uma inflamação imunomediada que danifica as glândulas lacrimais. Qualquer raça pode adoecer, mas Cavalier King Charles Spaniel, Bulldog Inglês, Lhasa Apso, Pug, Shih Tzu e West Highland White Terrier aparecem entre as raças predispostas descritas pela ACVO.
Em gatos, a CCS quantitativa é rara. Doença da superfície ocular e deficiência de lágrima podem ocorrer juntas, inclusive em animais com alterações ligadas ao herpesvírus felino, mas essa relação ainda não está tão bem definida quanto a doença canina. Uma série de casos de três centros veterinários encontrou apenas dez gatos que preenchiam critérios estritos de baixa produção lacrimal repetida. O estudo recomenda avaliar a película lacrimal em gatos com doença ocular, sem presumir que todo quadro seja a versão felina da CCS canina.
| Ponto de comparação | Cães | Gatos |
|---|---|---|
| Frequência da CCS quantitativa | Comum | Rara |
| Contexto frequente | Inflamação imunomediada das glândulas; também há causas neurológicas, infecciosas, congênitas e relacionadas a medicamentos | Pode acompanhar conjuntivite, ceratite, cicatrizes e alterações associadas ao herpesvírus felino |
| Interpretação do teste | Usa referências caninas junto com sinais e exame ocular | Exige referências felinas e contexto; um número isolado não deve ser lido pela régua do cão |
| Plano de cuidado | O tratamento estimulante costuma ser contínuo e, em muitos casos, vitalício | Depende da causa, de doenças oculares associadas e da resposta nas reavaliações |
Animais de focinho curto merecem atenção adicional, mas predisposição não é diagnóstico. Olhos mais expostos, fechamento incompleto das pálpebras, pelos em contato com a córnea e piscar ineficiente podem agravar o ressecamento ou produzir doença semelhante. A ACVO recomenda exame ocular ao menos anual para pets braquicefálicos e atendimento imediato diante de vermelhidão, atrito, olho fechado ou opacidade.
O diagnóstico mede lágrima e examina a córnea
O teste lacrimal de Schirmer usa uma tira de papel especial posicionada junto à pálpebra por um minuto. Ele mede a parte aquosa da lágrima em milímetros de umedecimento por minuto. O exame deve ser feito antes de pingar qualquer solução, pois gotas e manipulação podem alterar o resultado.
Não há um único número que, sozinho, resolva todos os casos. A espécie, os sinais, o aspecto da superfície, os medicamentos em uso e a comparação entre os dois olhos mudam a interpretação. Isso pesa ainda mais nos gatos. Na série felina citada acima, um resultado baixo precisava aparecer em pelo menos duas consultas para que o caso entrasse no estudo.
O veterinário combina o Schirmer com a observação ampliada da córnea e da conjuntiva. A fluoresceína adere onde o revestimento corneano perdeu células e ajuda a revelar úlceras. Segundo o manual profissional do MSD, a mesma coloração também pode avaliar a estabilidade da película e a drenagem pelo ducto lacrimal. Em alguns pacientes, o tempo de ruptura da lágrima, outras colorações, a pressão intraocular e exames dirigidos à causa completam a avaliação.
Esse conjunto evita dois erros. O primeiro é chamar qualquer secreção de conjuntivite. O segundo é descartar olho seco porque uma medida ficou acima de um corte encontrado na internet. O diagnóstico descreve quantidade, qualidade e dano já presente, não apenas o comprimento molhado de uma tira.
O tratamento protege a córnea e exige constância
O plano pode combinar medicamentos que estimulam a produção lacrimal com lubrificantes que substituem parte da película. O veterinário também trata úlcera, infecção, inflamação, alteração palpebral ou doença de base quando elas estão presentes. Em cães com a forma imunomediada, ciclosporina ou outro imunomodulador oftálmico pode fazer parte da prescrição. A escolha, a concentração e a frequência pertencem ao caso individual.
A resposta não costuma ser instantânea. O MSD Veterinary Manual informa que a resposta aos estimulantes lacrimais é reavaliada ao longo de semanas a meses. Por isso, a melhora da secreção ou do brilho do olho não é motivo para interromper o tratamento. Em muitos cães, o cuidado é diário e vitalício. Nos gatos, a equipe precisa acompanhar a causa associada e a resposta, que não deve ser presumida a partir de dados caninos.
Nunca reutilize colírio humano, antibiótico ou frasco antigo sem confirmar com o veterinário. Alguns colírios com corticoide só são considerados quando uma úlcera foi excluída; usados no cenário errado, podem comprometer a segurança do tratamento. Um produto dermatológico com nome parecido também não deve ser aplicado no olho.
Casos caninos graves que não respondem ao tratamento clínico podem ser encaminhados ao oftalmologista veterinário para discutir cirurgia. Essa é uma decisão de exceção, tomada depois de confirmar o diagnóstico, revisar a aplicação dos medicamentos e avaliar a capacidade residual das glândulas.
Uma rotina simples evita falhas silenciosas
O cuidado contínuo funciona melhor quando cabe na rotina da casa. Uma semana organizada também oferece ao veterinário dados melhores do que a impressão vaga de que “parecia melhor”. Use esta lista somente depois de receber a prescrição e a técnica de aplicação:
- Marque cada aplicação no celular ou numa folha visível.
- Use cada frasco no olho e no horário indicados. Confirme com a equipe a ordem quando houver mais de um produto.
- Não encoste a ponta do frasco no olho, nos cílios ou nos dedos.
- Observe se a secreção volta antes da próxima aplicação e se o pet aperta o olho.
- Avise antes de o medicamento acabar e compareça às reavaliações, mesmo quando o olho parece limpo.
Se a equipe orientar limpeza, remova apenas a secreção externa com material limpo e umedecido, sem esfregar a córnea nem forçar as pálpebras. Limpeza melhora o acúmulo visível, mas não repõe o filme lacrimal e não estimula a glândula por si só.
Evite vento direto no rosto, inclusive ventilador forte e cabeça para fora da janela do carro. Em pets braquicefálicos, confira também se as pálpebras fecham por completo durante o sono e relate qualquer área que fique exposta. Não apare pelos muito perto do olho sem técnica segura.
Fotografe os dois olhos sob a mesma luz quando notar mudança, sem flash próximo. Anote quando a secreção reapareceu, qual produto foi aplicado e se o animal tentou esfregar. O guia sobre o que anotar antes da consulta ajuda a montar uma linha do tempo curta. Se houver piora, use o plano de contato da clínica ou as orientações para as primeiras horas de uma emergência com o pet.
Perguntas frequentes
Olho seco é o mesmo que conjuntivite?
Não. O olho seco inflama a conjuntiva e pode parecer conjuntivite, mas existem outras causas de vermelhidão e secreção. O teste lacrimal e o exame da córnea ajudam a separar os problemas.
Se a secreção está verde, basta usar antibiótico?
Não. A secreção pode ficar espessa porque falta a parte aquosa da lágrima, e uma úlcera pode estar presente. O tratamento precisa partir do exame, não da cor.
Posso esperar dois dias para ver se melhora?
Não se houver olho fechado, dor, atrito, vermelhidão, opacidade, secreção nova ou mudança visual. Esses sinais justificam contato e avaliação sem demora.
Um resultado normal no Schirmer exclui olho seco?
Não em todos os casos. O teste mede principalmente a parte aquosa. Uma película lacrimal instável ou com qualidade alterada pode exigir outros testes.
Todo animal com olho seco usará colírio para sempre?
Muitos cães com a forma imunomediada precisam de tratamento vitalício. Em gatos e em causas neurológicas, medicamentosas ou anatômicas, o plano depende do diagnóstico e das reavaliações. Nunca suspenda por conta própria.
Posso limpar o olho com soro fisiológico?
Peça à equipe que mostre o produto e a técnica adequados. A limpeza externa pode remover secreção, mas não trata a falta de lágrima e não substitui os medicamentos prescritos.
Leve o e-book e uma boa linha do tempo
O e-book sobre olho seco será liberado nesta página após o cadastro. Use-o para reconhecer o tema e organizar dúvidas, sem trocar a consulta por leitura. Se o olho está dolorido ou mudou de aparência, procure atendimento primeiro e leve horários, fotos e nomes dos produtos já usados.
Para entender melhor como o Criando Elos organiza prevenção, sinais e cuidado em casa, veja os cursos disponíveis. Informação boa encurta o caminho até o atendimento certo, mas o exame ocular é o que mostra se a córnea está segura.
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Este artigo é educativo e não substitui a consulta com o médico veterinário. Em emergência, procure atendimento imediato.