Criando Elos
← Todos os artigos

Síndrome do braquicefálico: ronco não é fofinho

Por Victor Costa, médico veterinário (CRMV MG 21605) · 19 de setembro de 2026 · 10 min

Bulldog francês e pug passam por avaliação veterinária das narinas em uma sala fresca

Ilustração criada com IA a partir da arte-base fornecida ao Criando Elos; composição revisada editorialmente.

O Bulldog ronca e a família acha gracioso. O Pug ofega depois de uma volta curta e parece apenas “cansadinho”. O Shih Tzu vive com os olhos vermelhos. Esses sinais não devem ser aceitos como o jeito normal da raça.

Em cães de focinho curto, ruído respiratório acordado, esforço para puxar o ar, intolerância ao exercício e dificuldade para se recuperar do calor podem indicar síndrome obstrutiva das vias aéreas dos braquicefálicos, conhecida pela sigla BOAS. A conformação achatada do crânio também aumenta o risco de problemas oculares. Nem todo animal apresenta todas as alterações, e a intensidade varia muito até entre indivíduos da mesma raça.

O que a síndrome braquicefálica reúne

Os ossos da face foram encurtados pela seleção de características como focinho pequeno e cabeça arredondada. Os tecidos moles não diminuíram na mesma proporção. Assim, língua, palato e outros tecidos precisam ocupar um espaço menor, enquanto a passagem de ar já pode começar estreita no nariz.

A American College of Veterinary Surgeons descreve narinas estenóticas, palato mole alongado e sáculos laríngeos evertidos entre os componentes frequentes. Alguns cães também apresentam traqueia hipoplásica ou colapso da laringe. O Royal Veterinary College acrescenta tecidos faríngeos redundantes, palato espesso e alterações nas estruturas internas do nariz.

As alterações podem se somar. Para inspirar, o animal cria uma pressão negativa maior. Esse esforço repetido pode puxar os sáculos laríngeos para dentro da via aérea e contribuir para alterações secundárias da laringe. A passagem fica ainda menor justamente quando o pet precisa de mais ar.

Infográfico com sete alertas ligados à conformação braquicefálica: narinas estreitas, passagem nasal reduzida, palato mole alongado, traqueia hipoplásica, olho seco, olho exposto e intolerância ao calor
Sete alterações para observar. A ilustração organiza sinais e consequências, mas não substitui a avaliação individual. Arte criada com IA a partir da imagem-base enviada ao Criando Elos.

Sete problemas ligados ao mesmo formato de crânio

O número sete organiza esta explicação, não é uma lista diagnóstica fechada. A BOAS pode envolver outras estruturas, e os dois problemas oculares abaixo pertencem à síndrome ocular dos braquicefálicos, não à obstrução respiratória em si.

AlteraçãoO que pode acontecerO que a família pode perceber
Narinas estreitasA entrada de ar já começa limitadaNarinas que fecham ao inspirar, esforço e ruído
Passagem nasal reduzidaCornetos e tecidos internos ocupam espaço demaisRespiração ruidosa, sobretudo com a boca fechada
Palato mole longo ou espessoO tecido alcança a entrada da laringe e vibraRonco, engasgos, piora ao dormir ou se agitar
Traqueia hipoplásicaA traqueia tem calibre menor em alguns cãesMenor reserva respiratória; a radiografia pode ajudar a avaliar
Filme lacrimal alteradoA lágrima pode ser insuficiente ou instávelVermelhidão, secreção, desconforto e lesões de córnea
Olho mais expostoA órbita rasa e o fechamento incompleto deixam a córnea vulnerávelIrritação, trauma, úlcera e risco de proptose
Intolerância ao calorO ofego perde eficiência para dissipar calorRecuperação demorada, agitação, procura por piso frio e colapso

Esses itens não aparecem sempre juntos. Persas e outros gatos de face achatada também podem ter obstrução nasal e doença ocular, mas a apresentação felina não deve ser tratada como uma cópia exata da canina. Raça e aparência levantam suspeita; não fecham diagnóstico.

Quais sinais não devem ser normalizados

Um cão saudável respira silenciosamente em repouso. A Universidade de Cambridge orienta observar ruído respiratório, estreitamento das narinas, sinais digestivos, alteração do sono, intolerância ao calor, mucosas azuladas e colapso. Alguns cães parecem bem parados e mostram o comprometimento somente depois de atividade controlada.

Procure avaliação quando houver:

  • Ronco ou som áspero enquanto o animal está acordado.
  • Abdômen e peito trabalhando demais a cada inspiração.
  • Sono interrompido, postura incomum para dormir ou despertares com falta de ar.
  • Ofego muito intenso para o esforço realizado ou demora para se recuperar.
  • Engasgos, regurgitação ou vômitos associados aos episódios respiratórios.
  • Olho vermelho, secreção recorrente, piscada exagerada ou tentativa de esfregar o rosto.

Filmar um episódio curto, sem provocar exercício, pode ajudar o veterinário. Registre horário, temperatura do ambiente, atividade anterior e tempo de recuperação. Não faça um “teste” de corrida em casa para ver até onde o pet aguenta.

Quando o calor transforma o quadro em emergência

Cães perdem calor principalmente pelo ofego. Uma via aérea estreita torna esse mecanismo menos eficiente. Ao superaquecer, o animal ofega mais, os tecidos podem inchar e a resistência à passagem do ar aumenta. O ciclo pode piorar depressa.

Uma declaração de consenso do grupo britânico de braquicefalia aponta risco aumentado de doença relacionada ao calor em braquicefálicos. Exercício é um gatilho frequente, e alguns animais podem superaquecer mesmo em temperaturas que parecem moderadas para outras raças.

Interrompa a atividade e procure atendimento imediato se o pet não consegue se acalmar, apresenta dificuldade acentuada para puxar o ar, fraqueza, confusão, vômitos repetidos, língua ou gengiva azulada, desmaio ou colapso. Leve-o para um local fresco e siga a orientação da equipe durante o transporte. Não espere a respiração “voltar ao normal” sozinha.

Por que os olhos também precisam de atenção

A órbita mais rasa deixa o globo ocular proeminente. As pálpebras podem não fechar por completo, o piscar pode distribuir mal a lágrima e pelos da dobra nasal podem tocar a córnea. Além disso, o filme lacrimal pode ter pouca parte aquosa ou evaporar depressa. Ductos lacrimais alterados prejudicam a drenagem, mas não são as glândulas que produzem a lágrima.

Uma revisão sobre síndrome ocular braquicefálica descreve menor produção lacrimal média em cães braquicefálicos e alterações qualitativas do filme lacrimal. Isso ajuda a explicar por que um olho pode sofrer mesmo quando um único teste não parece dramaticamente baixo.

Proptose é o deslocamento do olho para fora da órbita, com as pálpebras presas atrás do globo. É uma emergência. O Merck Veterinary Manual confirma a predisposição dos braquicefálicos. Não tente empurrar o olho de volta. Proteja o animal de novos traumas e vá imediatamente ao atendimento.

Para aprofundar os testes e os cuidados, leia o guia sobre olho seco em cães e gatos.

Como o veterinário investiga a respiração e os olhos

A consulta começa acordada: histórico, peso, condição corporal, formato das narinas, ruídos, padrão respiratório e recuperação após atividades habituais. Em cães estáveis e com equipe treinada, um teste de exercício controlado pode revelar sinais ausentes no repouso. O protocolo não deve ser improvisado em casa.

As narinas externas podem ser avaliadas no exame físico. Já o palato mole, os sáculos e a laringe geralmente exigem anestesia para visualização adequada, como explica a ACVS. Portanto, não é correto dizer que só a sedação mostra toda a síndrome, nem que ela é necessária para medir a abertura das narinas.

Radiografias de tórax podem avaliar a traqueia, os pulmões e outras causas de sinais respiratórios. Tomografia, endoscopia, exames cardíacos e testes funcionais são escolhidos conforme o caso. A oximetria oferece uma medida momentânea da saturação, mas um número isolado não resume a gravidade da BOAS.

Nos olhos, o teste de Schirmer mede a parte aquosa da lágrima. Fluoresceína ajuda a revelar úlceras e pode contribuir para avaliar drenagem e estabilidade do filme. O veterinário também examina pálpebras, fechamento ocular, pelos em contato com a córnea e qualidade da superfície. O conjunto importa mais do que um único resultado.

Tratamento: cirurgia, peso e rotina trabalham juntos

Controle de peso, ambiente fresco, atividade adaptada e uso de peitoral reduzem fatores que pioram o esforço respiratório. Eles não alargam uma via aérea anatomicamente estreita. Quando há obstrução relevante, a equipe pode indicar cirurgia para ampliar as narinas, reduzir o excesso do palato e tratar tecidos laríngeos comprometidos.

Animais jovens tendem a ter prognóstico melhor antes de alterações secundárias avançadas, segundo a ACVS. Isso apoia avaliação precoce, mas não transforma a faixa de seis a doze meses numa regra universal. O momento depende dos sinais, das estruturas afetadas, da gravidade e do risco anestésico de cada paciente.

Ronco pode diminuir depois da correção, mas o objetivo não é produzir silêncio estético. É melhorar a passagem de ar, o sono, a tolerância ao exercício e a segurança térmica. Casos com colapso laríngeo avançado podem ter resposta limitada e exigem planejamento especializado.

Olho seco não deve ser tratado automaticamente com ciclosporina. O medicamento pode fazer parte da prescrição quando o diagnóstico e a causa justificam, muitas vezes por longo prazo. Lubrificantes, tratamento de úlcera, correção de pálpebras e outras medidas mudam conforme o exame. Colírio com corticoide pode ser perigoso quando há úlcera.

Em casa, prefira passeios nos horários mais frescos, leve água, evite excitação prolongada no calor e nunca deixe o animal em carro parado. Ar-condicionado ou ventilação adequada pode ser uma medida de saúde para um pet afetado. Troque a coleira cervical pelo peitoral quando a equipe orientar e mantenha consultas regulares para respiração, peso e olhos.

Perguntas frequentes

Todo braquicefálico tem BOAS?

Não. A conformação aumenta o risco, mas a presença e a gravidade precisam de avaliação individual. Um animal sem sinais hoje também merece acompanhamento, pois algumas alterações se tornam mais evidentes com crescimento, ganho de peso ou progressão secundária.

Roncar dormindo é normal para Pug ou Bulldog?

Ronco indica turbulência na passagem de ar. Pode ser comum nessas raças, mas comum não significa saudável. Ronco acordado ou ruído em repouso leve é especialmente preocupante.

A cirurgia deve ser feita entre seis e doze meses?

Não existe uma idade única para todos. Avaliar cedo evita esperar alterações secundárias, mas a indicação e o momento dependem do exame e dos riscos do paciente.

O teste de Schirmer deve entrar em todo check-up?

Pets braquicefálicos merecem exame ocular regular. O veterinário decide quando usar Schirmer, fluoresceína e outros testes conforme raça, anatomia, sinais e histórico. Vermelhidão ou dor não deve esperar o check-up anual.

Peitoral resolve a dificuldade para respirar?

O peitoral evita pressão adicional no pescoço, mas não corrige narinas, palato, laringe ou traqueia. Ele é uma parte do manejo, não o tratamento da obstrução.

Quando preciso ir à emergência?

Dificuldade intensa para respirar, mucosa azulada, desmaio, colapso, superaquecimento que não melhora rapidamente ou proptose ocular exigem atendimento imediato. Consulte também o guia sobre as primeiras horas de uma emergência com o pet.

O braquicefálico não escolhe respirar com ruído. Muitos nunca conheceram outra forma de puxar o ar, e a família pode se acostumar aos sinais antes de perceber a limitação. Observe o pet acordado, dormindo e depois das atividades habituais. Grave mudanças, evite calor e leve as dúvidas para uma avaliação completa.

Os cursos Criando Elos ajudam a organizar a observação da rotina e dos sinais de alerta. Eles não substituem o exame nem devem atrasar uma emergência.

Materiais gratuitos

Receba conteúdos para cuidar melhor do seu pet

Cadastre seu nome, melhor e-mail e WhatsApp. Você receberá materiais educativos do Criando Elos e, após o cadastro, poderá acessar nosso checklist gratuito de sinais de alerta.

Preencha os três campos e confirme sua autorização.

Seus dados serão usados para registrar seu interesse e enviar conteúdos do Criando Elos por e-mail ou WhatsApp. Você pode cancelar quando quiser.

Este artigo é educativo e não substitui a consulta com o médico veterinário. Em emergência, procure atendimento imediato.